No Interlúdio de um Verão

Caminho sobre a linha das ondas onde crianças sentaram apreensivas em seus primeiros banhos de mar. Maçaricos divertidos, garças brancas e destemidos biguás me alegram com sua companhia. Uma onda inesperada parece brincar comigo, banhando minhas pernas nas águas mornas das tardes de verão. Um falcão pousa por um breve instante à sombra de uma…

Há Muros que se Chamam Amor

Há muros que separam, constrangem, delineiam divisas e limites, mas há também aqueles, com a altura de nosso peito, que convidam a uma boa conversa, entremeada de risos fartos ou, por vezes, lamentos tristes também. Foram em conversas assim, junto ao muro que margeia o prédio onde resido e a casa de meus vizinhos, que…

Uma Criança na Janela de um Avião

Alguns anos atrás, tomei um avião em Brasília com destino a Porto Alegre, ao voltar de uma semana — dessas que a gente guarda com carinho — na Chapada dos Veadeiros. Confesso que sempre evitei viagens aéreas, pois visivelmente não me sinto bem voando. No entanto, esta vez foi diferente. Era início de noite em…

Música

Sinto uma leveza ao viajar de trem agora. Ainda costumo ouvir mantras e músicas que alegram meu coração. Por vezes, o Sol parece embarcar também e preencher o vagão com luminosidade, suavizando o ar, aquecendo as pessoas e tudo se torna familiar. Observo que pessoas com aparentes desequilíbrios parecem querer se acomodar perto de mim,…

O Anjo e a Semente

A experiência no trem, o dourado no céu, as pessoas, a infinita diversidade ainda reverberavam leves e sutis em meu coração, em cada célula de meu corpo, e ampliavam as planícies dentro de mim, alumiando o solo numa sensação de me expandir num horizonte luminoso de possibilidades. Foi então que, num bater de asas, conheci…

A Luz Dourada

Mais uma vez eu embarcava no trem, era daqueles antigos, com ventiladores no teto sempre a dar o tom à rotina das pessoas, suas conversas, suas inquietações, seus silêncios. Sentei-me à janela que algum passageiro anterior havia aberto o suficiente a convidar o ar primaveril a viajar. Então, lembrei de uns mantras que havia guardado…

Ao Pôr do Sol

O inverno anunciava sua despedida e eu contemplava o Sol escondendo-se mansamente atrás das montanhas, pintando o céu e as nuvens acinzentadas com lilases e tons de rosa. Subitamente, em um tênue instante, tive a sensação de um leve mergulho na paisagem e, no olhar, a perspectiva pareceu-me ampliar-se, aprofundar-se, abraçando os telhados das casas,…

A Física e as Madonas

Uma alma estradeira pode acabar levando a gente por caminhos inesperados. Tudo começou quando decidi explorar aquelas trilhas instigantes — uma história um tanto cabeça, diga-se de passagem — da Física Unificada. Pois não demorou e os contornos masculinos dessas trilhas foram delineando uma aproximação, um aperto de mãos subitamente radiante dos pais em mim.…

Memória Bailarina

Talvez a idade tenha relação com o que vou escrever, e sendo assim, acompanhando essa nova perspectiva, há pouco tempo percebi um deslocamento em meu olhar. Comecei a sentir um contentamento sempre que me voltava para trás. Normalmente acontecia em momentos difíceis, desses quando a gente não sabe muito bem como sair ou ficar. Então,…

Um Presente em um Quase Natal

Um passageiro colocou-se de pé, ajeitando-se para desembarcar, e foi um alívio poder sentar naquele trem de bancos rijos, cor de laranja, cortando o ar escaldante naquela meia-tarde, daquele dia, daquele quase verão. Finalmente poder fechar os olhos e deixar-me embalar pelos movimentos compassados, arriscando acordes talvez ou, quem sabe, sonhasse premonições. Infindáveis estações —…