O sol ressurgiu naquela manhã, após dias de uma chuva incessante, tipicamente outonal. Decidi sair a caminhar, sem rumo certo, improvisando ao longo de caminhos margeados de verde. O morro à frente aproximava-se cada vez mais, já andava longe de casa e um pensamento subitamente perpassou minha mente: bastava seguir caminhando, minhas pernas eram tudo que eu necessitava, um passo de cada vez.

Atrás de mim, o centro da cidade agora parecia distante. Uma sensação percorreu meu corpo e senti todo lugar, as pessoas com seus hábitos e crenças, seus humores e desejos, seus prazeres e temores, em todos os meandros e nuances tudo estava ali, nessa paisagem em um dia claro, criada como um reflexo de mim mesma. Era uma constatação, não uma crítica ou julgamento. Tudo estava posto diante de mim para ser visto, reconhecido. Eu havia manifestado toda essa paisagem e esta era a razão de ter escolhido este lugar, de estar aqui.

Vivemos o que escolhemos e somos responsáveis pelo que manifestamos, pois tudo é um reflexo de nós mesmos, das sutilezas mais sublimes às obscuridades mais sombrias.

Sim, escolhi estar aqui e agora. Escolhi o mergulho às profundezas para emergir na integração dessa dualidade. Escolhi o limite para vislumbrar a vastidão da paisagem que reluz a expansão de minha consciência.

O medo, a violência, a opressão a que inconscientemente nos predispomos, gradativamente cultivamos e alimentamos com nossa atenção e escolhas diárias, rejeitamos depois como estranhos a nós, porque nos sentimos vitimados, traídos e injustiçados em nossa desconexão perante a vida, o amor, a compaixão. Mas, verdadeiramente, a realidade que nos envolve e, por vezes, atemoriza ou sufoca, emana de nós mesmos. E, como somos uma coletividade, manifestamos e refletimos coletivamente também.

Quando damos um passo atrás ou caminhamos, nos distanciando, e voltamos nosso rosto, abrindo os olhos ao horizonte, descobrimos a clareza e a dinâmica do cenário que criamos e que agora se estende diante de nós. As interconexões se apresentam e se agigantam como aparentes tramas a exalar um poder que em verdade emana de nós, como em nós reside a responsabilidade como criadores e não meras marionetes, personagens de um enredo dramático preconcebido a nos animar, dirigir e condicionar.

Os grilhões dessa galé que ora navegamos, trazem o peso das heranças, valores, crenças, costumes e paixões forjados ao longo das eras, nosso tempo humano dual, aos quais, em pueril e ilusória confiança, oferecemos nossa alma e nos agarramos com voraz empenho e fervor, remando à exaustão, ora a favor ora contra, ora seguindo uma antiga ordem ora uma nova ordem, sempre ao ritmo do inexorável tambor.

Porém, nesse intrincado jogo, também podemos pressentir o frescor dos aromas da liberdade, do equilíbrio e da sabedoria. Eis que, no acender de um improviso, um raio de sol beija nossa fronte e abrimos os olhos e nosso coração e nos percebemos ao leme de uma nau transfigurada, velas arfando aos poderosos ventos da intuição, alegria e fantasia, rumo a desafios e descobertas, nos arriscando a sermos livres, conectados uns aos outros pelos elos delicados da empatia e compaixão.

Milagres se sucedem quando abrimos o olho do nosso coração e assumimos indubitavelmente o leme de nossas vidas e consciências, porque esse é o nosso poder, nosso propósito e nosso destino.

Tenhamos a ousadia de erguer os olhos diante de nossos espelhos, despojando-nos de nossos pesados grilhões. Despertemos a inocência entorpecida em nosso peito e confiemos em nossos corações para manifestar, com intenção sincera, nosso maior tesouro, nosso milagre — nossa própria vida.

Maristela Rohenkohl

Julho 20, 2021.

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