Certo dia, saí a caminhar pelas ruas da cidade. A vida parecia se espreguiçar naquela tarde ensolarada. Seguia já distante de casa, quando ouvi uma algazarra de crianças ao longe. O alvoroço aumentava à medida que me aproximava do pátio de um jardim de infância. Crianças gritavam enquanto se moviam freneticamente, em um incessante subir e descer, entrar e sair de uma estrutura de plástico colorida, em forma de castelo, instalada no chão totalmente coberto por um tapete de grama verde artificial.

À frente do pátio, havia um muro baixo, encimado por uma grade intransponível que limitava esse reino avesso à terra e às plantas. Nesse limiar da vida, dois meninos brincavam alheios à inquietação do grupo, em silêncio, centrados em si mesmos e em admirável colaboração.

Na outra margem da calçada, erguia-se um pinheiro que, em maternal cumplicidade, lançava algumas de suas agulhas ao alcance dos dois meninos, despertando sua curiosidade. Os dois pequenos as coletavam e dispunham sobre o muro em um arranjo cuidadosamente elaborado, seguindo unicamente as leis de sua imaginação.

Sem me fazer notar, detive-me por alguns instantes, enternecida, a observá-los. “Meus heróis”, murmurei baixinho, “meus dois pequenos heróis…”

Distante, muito distante dali, crianças de povos tradicionais, quando solicitadas a desenhar imagens que representem a Natureza, frequentemente desenham sua mão, seu pé ou sua mãe, revelando ao mundo seu sentimento de pertencimento, integração e identificação com essa que percebem ser sua mãe também.

Sociedades tribais que ainda trazem em seu âmago a conexão com o ambiente natural em que vivem, preservam seus ritos de passagem, através dos quais celebram a introdução dos jovens na vida adulta, pela extensão de seus vínculos parentais e reconhecimento da Natureza como sua mãe e os Céus, como seu pai. Suas vidas se expandem, assumem uma nova dimensão. Seus horizontes se alargam numa autonomia crescente que se desenvolve sem cisões traumáticas ou soluções de continuidade, pois já não são mais filhos apenas de seus pais biológicos, mas da Natureza e dos Céus, a quem amam, honram e se identificam também.

E é nesse encontro da Mãe Natureza e o Pai Celeste, de Gaia e o Grande Espírito, que as mais sagradas núpcias acontecem e a Criança Interior renasce unificada em sua humanidade e divindade.

Crianças sentem-se acolhidas pela Natureza, essa Grande Mãe, cujo convite irresistível as leva a explorá-la e a descobrir seus infindáveis segredos, mistérios e tesouros. Em suas complexas interconexões, ela lhes fala sobre colaboração e propõe desafios que instigam a curiosidade, a inventividade e o imaginário das crianças, espelhando sua inteligência, sua sabedoria adormecida.

No aconchego de seu colo, crianças despertam seus sentidos e sutil sensibilidade, nutrem sua fantasia, seu senso poético inato e seu amor no amor que é a própria vida que a tudo anima.

Na generosidade de seu seio, a criança vivencia o poder da regeneração e do eterno renascer, e aprende a confiar na benevolência que permeia a abundância de sua Mãe, néctar de toda criação.

Não somos apenas parte da Natureza, somos suas crianças — somos Natureza. Somos essa matéria, essa energia densa que dá forma as coisas nesse Universo criado. Somos a luz — partícula e onda —, somos a música, o verbo, o som primordial. Somos o Espírito que se faz presença, tempo, corpo. E, ao escutarmos nosso corpo, escutamos o próprio som da criação.

A criança, ao descobrir as sensações, formas e movimentos de seu corpo, realiza o essencial ancoramento do Espírito que É. Sua consciência desperta nessa realização que se renova a cada instante, em rituais próprios, evolui e estende-se para além de seu corpo, de seus pais, encontrando seu reflexo na Mãe Natureza e na Humanidade.

Quase quatro anos se passaram desde aquela tarde em que encontrei os dois meninos e percebo agora que somos esse Espírito Criança em sua jornada humana evolucionária a expandir sua própria consciência. Percebo que o ancoramento no nosso corpo, na Natureza, é o fundamento de nosso equilíbrio, saúde e autorrealização. A unificação de nossa Criança Interior acontece no amor a nós mesmos, que é sua íntima essência, e é nossa inteira responsabilidade realizá-la, criando um cenário onde somos capazes de olhar e espelhar com zelo, compaixão e benevolência as crianças que geramos e acolhemos nos jardins de nossa família Gaia.

Maristela Rohenkohl

Abril 12, 2021.

Imagem: Nautilus of Life, by Josephine Wall


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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