Caminho sobre a linha das ondas onde crianças sentaram apreensivas em seus primeiros banhos de mar.

Maçaricos divertidos, garças brancas e destemidos biguás me alegram com sua companhia.

Uma onda inesperada parece brincar comigo, banhando minhas pernas nas águas mornas das tardes de verão.

Um falcão pousa por um breve instante à sombra de uma duna, enquanto um pescador solitário observa atentamente o mar.

Um cão é surpreendido por seu dono, seguindo-o ao entrar no mar. De volta à areia fofa da praia, ao murmurinho preguiçoso das pessoas, fixa seu olhar ao longe, onde uma fêmea parece hesitante em se aproximar. Alheio à cena, um casal jovem beija-se apaixonadamente, acariciado pelo hálito envolvente do respirar das ondas.

Há o sopro de um vento que suaviza o calor, há a sensualidade e a calma de um interlúdio nos corações das pessoas, há o colorido cintilante de uma invisível teia de conexões.

O Sol se inclina diante do horizonte, anunciando que é tempo de retornar. Procuro conchinhas em meio à espuma branca e a lâmina d’água reflete a luz e as nuvens do céu, sobre as quais deixo minhas pegadas.

Meus pés tocam a areia e a vida parece se iluminar nesse andar sobre reflexos, uma clareza que nasce da experiência de um corpo em movimento, presente, em relação.

Dias se passaram e volto àquela tarde de final de verão e busco o contentamento das imagens que me falam agora sobre a verdade das relações — somos reflexos e, como reflexos, nos relacionamos. Encontramos no outro o que está adormecido ou esquecido em nós. Descobrimos no outro o que nosso espírito nos quer lembrar.

Por vezes, o que vemos nos desagrada ou atemoriza, nos sentimos magoados, menosprezados ou agredidos, mas saibamos que nos olhos do outro há nosso espírito a nos observar, atendendo o chamado de nossa evolução, aguardando nosso reconhecimento, nosso despertar.

Somos alquimistas nesse encontro, convertendo o medo da vítima em calor da mais pura compaixão por nós mesmos e pelo outro, transmutando o algoz em herói de nossa criação. Pois, que o luzir de sua espada seja nossa coragem a transformar nossa crítica e julgamento em sábio discernimento.

Percebo agora, na luminosidade das pegadas de um final de verão que não há mais o que buscar, pois nós somos espírito. Somos o espírito a distinguir os matizes das cores sazonais, a respirar as nuances dos aromas, a sentir o toque dos pés na areia úmida da praia, nos ancorando com tamanha firmeza a reverberar em todo nosso corpo, encontrando na presença nosso lugar, nossa casa e, na consciência de cada encontro, nosso propósito e nosso destino.

Maristela Rohenkohl

Março 25, 2021.

Imagem: Three Little Maids, by Lucelle Raad


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

2 comentários sobre “No Interlúdio de um Verão

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