Há muros que separam, constrangem, delineiam divisas e limites, mas há também aqueles, com a altura de nosso peito, que convidam a uma boa conversa, entremeada de risos fartos ou, por vezes, lamentos tristes também.

Foram em conversas assim, junto ao muro que margeia o prédio onde resido e a casa de meus vizinhos, que aprendi o que é generosidade e amor à terra, aos bichos e às plantas. Descobri a alegria das reuniões em família regadas ao bom vinho da casa e, com elas, a abundância de quem vive a criatividade com peito aberto e coragem.

Há muros que nos aconchegam na simplicidade das manhãs, quando permitimos ao coração falar mais alto, sem temor, acolhendo com carinho as imperfeições e, assim, nos sentimos mais humanos.

Há muros que nos servem de espelho e revelam nossos próprios limites para que possamos nos tornar verdadeiros. E foi nesse jogo de reflexos que inesperadamente vislumbrei as cores de minha alma e aprendi a amar a mim mesma, um amor que nasceu na inocência de uma conversa sincera.

Amamos a nós mesmos como uma mãe ou um pai ama seus filhos. Amamos com compaixão diante de nossa efêmera humanidade, um amor apaixonado, puro e generoso que é a luz dos nossos olhos — nossa própria divindade. E assim, nosso espírito se cristaliza em nós na compaixão que nutrimos por nós mesmos e o respeito que cultivamos por nossa jornada, nossa história, nossos ancestrais. Seus cristais são a preciosa sabedoria que colhemos e rememoramos, são a consciência que expandimos em nós com um prazer sutil que ascende e nos faz vibrar com a delicada alegria dos acordes de uma música inaudível.

O amor por nós mesmos permite que compartilhemos e criemos com o outro no amor, em todos os níveis, com consciência e responsabilidade, sem ansiarmos mais por seu reconhecimento, apoio, aprovação, valorização — amor. Agora, somos capazes de abraçar a abundância de um viver, a benevolência de um sol que germina a terra com seu calor e luz.

E, mesmo que a criação encontre seu descanso no luar da noite, podemos lançar nossa compaixão sonhadora como um sopro a aquecer e despertar, ressoando em cada coração adormecido seu próprio espírito, seu próprio amor, seu próprio amanhecer.

Há muros que são portais com nossos nomes gravados em seus umbrais, porque nos reconhecem em nossa profunda intimidade. Há muros que nos aguardam pacientemente para que desenhemos nossos corações entrelaçados, como chaves de uma memória que nos eterniza em um coração maior chamado Gaia.

Com carinho e gratidão ao Seu Arno e Dona Lourdes Konzen.

Maristela Rohenkohl

Março 03, 2021.

Imagem: Climbing Rose, public domain image.

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