Alguns anos atrás, tomei um avião em Brasília com destino a Porto Alegre, ao voltar de uma semana — dessas que a gente guarda com carinho — na Chapada dos Veadeiros. Confesso que sempre evitei viagens aéreas, pois visivelmente não me sinto bem voando. No entanto, esta vez foi diferente.

Era início de noite em um típico verão no Cerrado. Sentei-me à janela e, assim que me acomodei, comecei a observar a movimentação no aeroporto: o trajeto levemente sinuoso do carrinho da bagagem, o vaivém dos funcionários, o pisca-pisca das luzes coloridas dos aviões. Observava tudo com atenção e curiosidade. Quando a aeronave começou a se mover, grudei o nariz na janela. À medida que ganhávamos altura e a perspectiva da paisagem mudava, as luzes da cidade me surpreendiam com traçados que iam se harmonizando em formas que se interligavam, como a tecer uma renda luminosa. Estávamos decolando, voando, e tudo estava bem!

Eu me deliciava com a descoberta de uma luminosidade inesperadamente bela dessa metrópole, cenário de tanto drama e poder. Havia luz compondo essa paisagem urbana, humana, luz de uma clareza e objetividade que somente os olhos da criança me permitiriam desvelar. Foi preciso romper a bolha do temor e me deixar arrebatar pela grande águia imaginária, alçar voo às alturas para tornar possível essa visão.

Por vezes, a trivial e mundana rotina se expõe numa numinosidade singela aos nossos olhos atentos, e preenche nosso coração com coragem, alegria extasiante e um pleno sentido de viver. Instantes nos quais o tempo é presença e sopra às pessoas uma inusitada conexão, e o desvalido “despropósito” revela-se criação, vida — apenas a vida, diriam alguns, apenas a vida.

E não seria o propósito, afinal, essa conexão? Muitos trazem em si o talento, o dom excepcional, que, ao se evidenciar, nos possibilita acessar aquele “além”, onde o amor é tudo o que é e tudo o que somos, cujo encantamento alegremente nos desnuda e nos surpreende criança.

Mas há também aqueles que trazem em si a sensibilidade que vislumbra o esplendor do detalhe no tênue instante em suspensão, quando as cores esmaecidas e as sombras cotidianas se iluminam ao toque de um olhar, talvez, quem sabe, o olhar de uma criança corajosa a desvendar o mundo com seu nariz grudado na janela de um avião a passar.

Maristela Rohenkohl

Janeiro 23, 2021.

Imagem: Little Girl Looking Out Airplane Window, by Kristen Macadams, public domain image

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