Havia folheado aquela revista algumas vezes, certamente visto aquela imagem, mas ali estava ela, bem diante de mim, como se fosse a primeira vez. E a sala se preencheu com sua presença e dela emanava uma paz que serenava meu peito — a imagem do monge e do elefante.

Pressenti sua importância e, sem hesitar, recortei e colei a imagem no centro da colagem de minha alma e tudo mais ali me pareceu agora em harmonia, em um dinamismo sempre a encontrar o equilíbrio.

Já não havia mais espaço para a ansiedade ou agressividade a disfarçar o medo de uma solidão, mas apenas o fluir de uma energia e a gratidão por aqueles que deixei. As folhas pardas em forma de espinhos transmutavam-se em flores de cores vibrantes simplesmente porque acolhiam a vida. Era como se uma semente houvesse germinado em meu coração e a plantinha se erguido, evoluindo de tal forma a abrir-se em flor às carícias de seres de outros reinos, em um encontro amoroso de uma nova autorrevelação.

A menina criativa, mas cativa em sua bolha encantada, a fantasiar reinos verdejantes em universos virtuais e imaginários, agora trazia em sua mãozinha um punhado de terra fértil, que colocava em minha mão, convidando-me a brincar. Que alegria sentir o cheiro de terra úmida e morna, pressentir os vibrantes espiritozinhos a minha espera, aguardando impacientes a hora de semear e plantar.

E, aos pés daquela menina cativa, habitava um velho livro, que não mais exalava o frescor das palavras, mas apenas o bolor das horas passadas a envolvê-la com uma sabedoria acondicionada em padrões, regras e costumes, por vezes criando abismos e, até mesmo, desonrando mestres e ancestrais. Então, diante do monge e do elefante, esse senhor das palavras renascia como mãos abertas a amparar com sua liberta sabedoria a viajante em suas descobertas e relembrares evolucionários, em um profundo azul eternamente criador.

Havia também, na colagem de minha alma, uma tímida moeda, esquecida de seu próprio brilho, que sulcava o chão de minha história, como um elo de uma antiga corrente sendo arrastada, dividindo mundos em conflitos herdados — matéria e espírito, muito e nada, pesado e leve. Mas então, meus olhos se ergueram e, da tromba do elefante, vi a moeda transfigurada em uma bela medalha de ouro surgir como um radiante sol. Em mim, amanheceu a certeza de que todo acontecer oportuniza a criação que, em sua verdade, traz em si a própria luz criada e seu intrínseco valor a tocar e preencher o coração das pessoas em sua própria e exata medida. E a medida desse acolhimento é a medida do valor reconhecido. Assim, finalmente, a matéria conheceu o espírito e o espírito iluminou a matéria. E nessa luz, a reconciliação dos mundos acontece.

O elefante, que traz em si a plenitude de uma realidade, a presença que toca o chão com firmeza e delicadeza, agora se inclina diante do monge, que o reconhece e ilumina com seu amor. E os dois, lado a lado, nessa colagem de minha alma, como mensageiros da Divina Mãe, me guiam a um novo estado de Ser, a minha nova morada.

Maristela Rohenkohl

Dezembro 08, 2020.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

2 comentários sobre “O Monge e o Elefante

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