Tudo me pareceu vago quando aquela imagem espiralada formou-se timidamente nos meus olhos durante o processo guiado por Devorah Spilman. “Parece o Nautilus”, pensei. E era mesmo, a sua concha. E essa pequena criatura dos mares tornou-se uma companhia amiga desde então, espreitando minha mente, me convidando a refletir, ansiando por luz.

Quando repouso em meu coração e sinto a energia expandir e contrair a cada respiração, meu querido Nautilus me fala do movimento original, o sopro criador que jamais esquece o centro, a morada. Eu me sinto aquecida e o chamo de “espiral benevolente”. E toda a expansão e contração, todo ir e vir em minha relação com o mundo, as pessoas, não é mais o mesmo porque o pequeno Nautilus está comigo.

Pequeno mestre ele é, tão antigo, primordial, guarda os mistérios de Gaia e os encantos do tempo sempre a espiralar. E a ilusão da linha reta se desfaz porque o tempo dança comigo, me fazendo girar em um redemoinho, em uma reprise de cenas até eu acordar. E aqui, mais uma vez, meu pequeno Nautilus me ensina que também sou senhora do meu passado e meu destino, quando, na evolução da constante presença, descanso o olhar e as mãos em meu peito, e descubro a beleza da vida nas paisagens que eu mesma criei.

Por um instante, retorno a infância e me lembro pequenina. Meu pai está junto a mim e traz em suas mãos um enorme caramujo, que antes enfeitava um dos móveis da sala. Ele me fala para colocar em meu ouvido e escutar. “É o mar!! Como é que o mar tá dentro do caramujo?” Fiquei perplexa e maravilhada, e, ao que me lembro, sem uma explicação também, porque o encantamento nunca mais se desfez. É o som do mar, a voz original que jamais silencia. É o canto que vem de dentro, de um não sei onde, de um coração indelével onde nasce o movimento espiral da criação. E o mistério do meu querido Nautilus reverbera na voz única dessa espiral. Esta é a voz, a linguagem da minha expressão que se expande única porque vem da minha morada, do meu coração.

Alguns dias se passaram e, vagando por imagens na internet, encontrei meu amigo Nautilus adornado com belas cores iridescentes que agora o iluminam em minha imaginação. E a luz e a voz finalmente se encontraram na beleza da música que tanto anseio ouvir, a música da minha conexão.

Abro os olhos e, diante de mim, vislumbro a nova energia em novos desafios e aprendizados que se sucedem em uma expansão virtual, um mundo sem fronteiras. Observo a tela do computador e percebo, por ora, a não benevolência do encantamento das luzes artificiais e do jogo de ilusões que preenchem e alimentam o vazio existencial e nos envolvem nesse ciclo vicioso e em um turbilhão de imagens, informações, sons, vozes, onde algoritmos confundem nossa intuição, nos colocando à deriva de um incessante e dispersivo movimento e uma luxuriante sensorialidade.

E, na dualidade compensatória desse movimento, criamos inumeráveis ferramentas para corrigir esse desequilíbrio e nos curar dessa profunda desconexão. E assim, de ferramenta em ferramenta, seguimos nossa jornada de curas na ilusão de um viver e na esperança de um despertar.

Agora, meu pequeno mestre Nautilus vem gentilmente até mim, emergindo como o sol dessa complexa paisagem. Abro portas e janelas e me permito expandir em novas dimensões. A sensibilidade me revela a energia das conexões. Meu coração é minha morada e permito que a espiral seja a nascente de minha única voz. E, ao final, contemplo esse belo cenário e percebo não mais a cura, mas o amanhecer de uma nova consciência, nessa dança viva da criação em seu magnífico fluir.

Maristela Rohenkohl

Outubro 12, 2020.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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