“Não sou uma singularidade, sou multiplicidade.” Esse pensamento e a imagem de uma macieira carregada de frutos à beira de um pequeno lago se tornaram recorrentes esta semana, depois do último encontro no grupo InStory Way, fazendo-me companhia em breves lampejos, enquanto escovava os dentes, lavava a louça na cozinha ou caminhava pelas ruas da cidade.

“Meu corpo é uma família. Pensa bem, todas aquelas celulazinhas entrelaçadas, se comportando cada uma como se fosse eu mesma — eu, uma individualidade!” Ajeito o travesseiro de penas de ganso e tento dormir.

Acordo cedo, com o vento soprando as janelas — talvez tenha sido um ciclone no mar outra vez. Tomo minha xícara de chá e o vento assovia os pensamentos: “Meus anjos cantam para mim, mesmo que eu não consiga ouvir.” Meus queridos anjos sempre me amando, aquecendo, orientando, protegendo e, assim, não esqueço meu espírito-criança que sorri para mim. Eles são minha amada família, minha alma eles são.

“A singularidade é uma ilusão, sou uma totalidade!” E todo esse cochicho só para perceber que eu sou uma totalidade e a multiplicidade que ela traz em si está sempre presente em cada gesto, cada intenção. A família está sempre lá e, pensando bem, não há porque pedir, mas apenas conhecer e permitir, pois não há separação. Sou uma totalidade!

Observo as luzes da cidade e concluo que nunca estou só. Meu viver é coletivo em todos os momentos. A gente trabalha em equipe a todo instante, criando e realizando individualmente ou não. Assim, a intenção sempre contempla o todo, dentro ou fora de mim.

Pedir torna-se um drama quando me vejo como singularidade, mesmo que esteja com outras pessoas. Individualismo, confusas relações de poder vêm à tona, espalhando sombras do passado por todo lado. Mas, quando percebo que sou uma multiplicidade, uma família, torna-se natural sentir cada pessoa ou ser que se aproxima como parte dessa família. É assim que me descubro, e há sempre certo mistério nesse encontro.

Posso estar sozinha em uma trilha ou me aventurando com um grupo, as trocas e a colaboração se tornam naturais se me percebo família, totalidade.

Ao retornar para a imagem daquela macieira repleta de frutos maduros, sua abundância e a verdade e profundeza do pequeno lago que a nutria, compreendo que o conhecimento está além da dualidade singular-plural. Está na consciência da totalidade. E nessa consciência, não preciso me preocupar ou pensar em abundância e generosidade, porque nessa consciência está a criatividade, a vida, o amor, o próprio fluir das coisas que me permeia e envolve, e onde me descubro mais uma vez família, me descubro Gaia.

Maristela Rohenkohl

Setembro 15, 2020.

Imagem: An Apple Tree by a Lake (detail), public domain image

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