Meu Espírito me presenteou com imagens surpreendentes esta manhã, ao soprar a poeira ainda guardada pelos cantos da memória um tanto sonâmbula de minha separação.

E assim foi que o momento da partida havia chegado naquele breve adeus após o café da manhã, e eu ultrapassava sozinha o portão, deixando para trás a antiga casa de madeira, o jardim de grama alta, o perfume da roseira selvagem ainda em flor e o homem que amava. À medida que caminhava, sentia o chão tremer e, quando percebi, estava em uma terra desnuda, onde todas as cores se vestiam de cinza, enquanto o chão desabava ao meu redor. Mesmo cansada, eu me mantinha em pé, inerte, perdida em um turbilhão de pensamentos, sobre uma única e frágil coluna de terra a me sustentar e de onde meus olhos nada mais conseguiam avistar.

Agora, deitada em minha cama, ouvia pássaros amanhecendo o dia na sacada e novos ventos sacudindo as vidraças, arejando as memórias em mim. E meu querido Espírito Criança desta vez me despertava faceiro, avoando a poeira para redesenhar todo cenário e criar a imagem de uma fresca paisagem, a visão magnífica de altas montanhas que coloria com seu hálito quente, suave e gentil. E eu ali, simplesmente contemplava e, tomada por essa pueril alegria, erguia meus braços abertos em um desejo de abraçar toda essa beleza com meu coração.

Mas eis que, inesperadamente, comecei a sentir o chão se mover e desmoronar junto a mim. Ondas de apreensão reverberavam em meu corpo, acordando mais uma vez a lembrança esvanecida da separação. Mas a criança a dançar brincava de artista e com destreza esculpia o cume de uma nova montanha com a terra a meus pés, onde eu permanecia imóvel, a visualizar a mesma magnífica paisagem que encantava minha manhã.

Neste instante, eu percebi a mensagem, compreendi que meus pés tocavam a única terra que lhes cabia tocar — o presente. As incessantes buscas de um longo caminho se revelavam ciclos vistos desse pequeno cume, o círculo do meu tempo, sem passado, sem futuro, apenas o meu indelével viver. Nenhum esforço de escalar montanhas acontecia, apenas o alívio de uma liberação, deixando a história ir para criar novas histórias. Nascia assim a confiança em mim de que os cenários mudariam, as paisagens se transformariam, e a montanha sempre se faria aos meus pés, como o gentil e exato chão permanentemente a me sustentar.

Maristela Rohenkohl

Agosto 20, 2020.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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