Sinto uma leveza ao viajar de trem agora. Ainda costumo ouvir mantras e músicas que alegram meu coração. Por vezes, o Sol parece embarcar também e preencher o vagão com luminosidade, suavizando o ar, aquecendo as pessoas e tudo se torna familiar. Observo que pessoas com aparentes desequilíbrios parecem querer se acomodar perto de mim, talvez com certa curiosidade, mas em quietude. E eu imagino meus braços de estendendo, abrindo-se em cores de compassividade.

Inesperadamente as plumas do mistério podem me surpreender e tocar minha face e a compreensão desenha-se em paisagens, imagens que me preenchem com um saber, o corpo vibra e ondas de pensamentos fluem simples, naturais, como sínteses. Há surpresa, satisfação e alegria quando a onda chega à praia e encontra a realidade. Ecoa um riso de criança no silêncio criador. É como viver a música. Talvez esse riso reverbere no coração das pessoas e o mistério emplumado as acaricie também, de um jeito próprio a cada uma.

Na Natureza, a música parece compor o cenário, reger os éteres e a vida. Basta sentir com mais vagar, contemplar, estar ali, e ela se revela. Sinto-me em casa, em Gaia, Deus está no meu coração e tudo fica bem.

Gaia é mãe, acalentadora quando preciso, nutridora, me ensina a ser resiliente, a ser generosa e acolhedora, a um só tempo, e me diz que o segredo da abundância e prosperidade está bem aí.

Gaia concebeu meu corpo e, desde então, me presenteia com tudo que necessito para mantê-lo saudável. E é no silêncio, em meu corpo, que sinto Gaia mais intimamente, envolvendo cada célula, cada fibra, cada partícula de mim com sua energia, sua consciência. E o mistério a flutuar nas profundezas, graciosamente me convida a lembrar de Gaia, de que sou Gaia — eu Sou.

O saber ancestral desvela-se aos pouquinhos, nos sopros dessa brisa misteriosa e sublime. São verdades evanescentes que recito ao Universo em lembranças e afirmações de mim — minhas pequenas sementes de luz. E meu corpo vibra em celebração, pois, mesmo que singela, há música. Há alegria, pois, mesmo que apenas por um breve instante, a criação ascendeu e fez o inefável Deus dançar.

Maristela Rohenkohl

Janeiro, 2020.

Imagem: Living Light, by Su Kwak

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s