Mais uma vez eu embarcava no trem, era daqueles antigos, com ventiladores no teto sempre a dar o tom à rotina das pessoas, suas conversas, suas inquietações, seus silêncios. Sentei-me à janela que algum passageiro anterior havia aberto o suficiente a convidar o ar primaveril a viajar. Então, lembrei de uns mantras que havia guardado no celular e coloquei os fonezinhos para ouvir. O mundo lá fora corria em meus olhos, quadro a quadro, enquanto vibrações sutis pareciam querer ascender do aparente caos.

O céu estava encoberto com nuvens brancas nada especiais. Era final de tarde… O terceiro mantra começou a tocar. Sentia o enlevo suave da música, enquanto observava as nuvens com mais vagar. Um brilho dourado surgia e se intensificava, delineando-as e perpassando-as com seus raios gentis. Havia delicadeza. Era belo! Duas nuvens desfaziam seu abraço, afastando-se levemente, apenas a permitir que o Sol, num discreto disco dourado, espiasse quem estava ali a admirá-lo. A luz dourada embelezava o cenário de tal forma a me acolher e presentear.

Neste momento, o trem chegava a mais uma estação. Ao olhar as pessoas se movendo de um lado a outro, me senti meio além do tempo. Parecia que o mundo se movia em câmera lenta e tudo adquiria uma nitidez incomum. O trem parou e a sensação permaneceu. Havia silêncio em todos os sons. Uma sensação luminosa foi se insinuando em mim, aclarando, e comecei a perceber divindade em cada uma daquelas pessoas. Deus estava ali, em todos aqueles rostos, sem excluir nenhum, sem condicionar, sem julgar. Havia amor, consciente ou inconsciente, não importava, eu via amor naqueles rostos. E um pensamento sussurrava em minha mente: diversidade… infinita diversidade…

O trem lentamente partia da estação, me reconduzindo devagarzinho ao tempo, enquanto o brilho dourado se desvanecia no ar. Desde este dia, descanso o olhar e observo sem pressa as pessoas nas ruas e a aquela mesma sensação continua a emergir. Deus está em todas as pessoas, conectando com seus raiozinhos dourados uma a uma, tecendo essa diversidade sem fim que pulsa plena em seu belo, invisível e único Coração.

Maristela Rohenkohl

Novembro, 2019.

Imagem: Reflection, by Su Kwak

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