Contemplava as estrelas que ainda cintilavam aqui e ali, brincando no amanhecer de um delicado despertar, e, em meio a seu brilho, havia o azul, o azul profundo, o azul da quietude do mar, em mim. E, deste mar interior que ora contemplava, emergiu uma imagem, uma numinosa forma abstrata, centrada em si mesma, que, em seu dinamismo, dançava graciosamente, exibindo sua coloração perolada com reflexos dourados. Um ou dois dias se passaram, quando, da infinitude serena deste mar, ecoou em minha mente, clara e límpida em sua simplicidade, a Madrepérola.

Significados entrelaçados surgiram a seguir, como luzes compondo um belo holograma de um feminino maternal em sua origem mais primordial, singela e majestosa.

Recolhida em si, a mãe envolve a pequenina pérola em formação no recôndito de seu ser, vitalizando e transmutando ao prover as substâncias necessárias à transformação do minúsculo grão de areia em uma preciosidade natural que encanta a todos por sua simplicidade e luminosidade. A pérola assim gestada é a criança que, ao ser desvelada, não importando sua coloração, brilha em sua iridescência, o mesmo brilho que embeleza sua mãe em seu interior.

Descoberta em sua essência, a Madrepérola, então, reverbera generosamente seus atributos maternos e energizantes aos corações sensíveis à sua presença, numa aurora acolhedora e generosa, plena em exuberante vitalidade.

Ao ser aberta, a concha mãe com seu pequeno tesouro nos sugere a imagem de um olho — um olhar reluzente e magnífico — que, em miríades de reflexos cintilantes, derrama sua luz sobre os olhos humanos, guiando-os pelo caminho sutil e intuitivo do equilíbrio e bem-estar, em todos os âmbitos.

A Madrepérola, em sua qualidade transmutadora, realiza um silencioso, paciente e delicado processo de criação no seu interior, que, ressoando no DNA humano, na memória de uma sabedoria adormecida, expande e eleva a consciência, libera e promove uma vida regenerativa, saudável e natural.

Evocada em sua origem, a concha e a pequenina impureza que a habita inspiram nossa compaixão diante de nossa própria humanidade que, em um observar contemplativo e benevolente, gentilmente reveste, envolve e transmuta nossos maiores sofrimentos e nos leva a perdoar, um perdão não relacionado a julgamento ou culpa, mas à liberação da luz que jaz em cada dor e a sua transformação em uma semente a ser despertada, semeada e cultivada com todo cuidado, carinho e gratidão.

Assim, a imagem transcendental da luz perolada com seus reflexos dourados e a primordial Madrepérola me falam intimamente sobre contemplação, paciência, meditação e a gênese de uma criatividade que desperta no silêncio e floresce ao ser revelada e co-criada.

Falam sobre o saber que emerge da compaixão e emana de uma simplicidade rica em delicada alegria e beleza, através da visão intuitiva de um amor que nos guia, transmuta, ascende e reverbera às pessoas e ao Universo clareza e luz.

Falam da Natureza, de Gaia, de nossa origem, do Ser germinal em nós, vivaz, iridescente, que nos olha e nos lembra de um amor familial, ancestral, que talvez tenhamos esquecido, mas que está sempre a fluir graciosa e incondicionalmente em seu próprio seio intangível e infinito, no íntimo de cada um de nós.

Maristela Rohenkohl

Fevereiro, 2020.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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