O CORTE

Nascer, dar-se à luz, e numa espiral anímica o bebê faz-se consciência. Nessa dança sincronística envolta em mistério, a mulher abre-se ao movimento em seu íntimo ao dar à luz, ao realizar-se em criação e ser mãe.

Nascer é separar-se e o gesto que o define é agora consciente, voluntário e altruísta — o corte do cordão umbilical.

Na Natureza, a mãe, em seu instinto sábio, realiza o corte logo após o nascimento de seu filhotinho, pois o mesmo precisa urgentemente se independizar para sobreviver. Nós humanos, em nosso processo civilizatório, nos afastamos dessa sabedoria natural e a responsabilidade do corte foi delegada a outras mãos, privando mãe e bebê de vivenciarem em sua plenitude esse momento inicial de excepcional importância.

Há benevolência e compaixão no corte, pois neste único gesto, ao mesmo tempo, honra-se o divino no bebê e reconhece-se as limitações da humanidade insipiente desse indelével ser, algo fundamental para seu crescimento natural e saudável e um coração generoso em autoestima e fé.

O entrelaçamento íntimo, físico, essencial à vida na gestação, se desfaz ao nascimento e, inequivocamente, ao corte do cordão umbilical, permitindo-se, assim, que ascenda a níveis mais sutis, honrando esse amor incondicional desvelado na aurora do primeiro olhar.

Para o bebê, o corte é o primeiro gesto de confiança e fé em seu eu divino e respeito à sua liberdade para seguir a guiança de sua sabedoria interior, afirmando sua presença. Há compassividade, pois há o reconhecimento de toda a inconsciência desse pequenino ser humano no princípio de sua longa jornada de aprendizados. O amor criativo, expansivo da mãe, então, recolhe-se ao seu próprio coração e rebrilha em silente compaixão. Não há mestria maior que o silêncio criador da mãe diante de seu filho, com seu olhar observador, cuidadoso, protetor e benevolente.

Assim, o corte é a afirmação de uma mãe responsável sobre sua mestria diante de seu bebê, de seus relacionamentos e de si mesma. Reconhecendo-se humana ao seu próprio olhar contemplativo, à sua maternidade transcendental, abre-se ao Divino interior, à escuta de seu amor intuitivo e sua orientação. Ao soltar as amarras da imaturidade, da infantilidade, reacende sua criança-mãe divina com toda a beleza, alegria, entusiasmo e vigor, renovando-se a cada nascer e liberar revividos, a cada descoberta sua e de seu bebê, a cada amanhecer neste horizonte humano de possibilidades.

O movimento anímico e o gesto definitivo marcam a completude dessa evolução infinita, e, ao soltar as amarras, a mãe, em seu discernimento e compaixão, permite o vazio onde repousa a semente do mistério da criação. E o entrelaçamento, ora ascenso, acontece entre ela e seu bebê no seio materno universal, pleno em generosidade, abundância e longevidade.

Maristela Rohenkohl

Janeiro, 2020.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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