O OLHAR

Uma centelha, uma pequenina centelha acende-se na energia do encontro, feminino e masculino em completude, em unidade, e Deus em Gaia celebra a nova vida. Terra e estrelas concebem o pequenino corpo que abriga a Luz em si.

A mulher acolhe e nutre o mistério, numinosidade moldada, acalentada por mãos universais. E no instante certo, conforme as histórias humanas, ela renasce mãe, apresentando ao Sol a centelha guardada, que no seu olhar se reconhece Ser.

A criança iluminada, aconchegada ao peito, volta sua pequena face para a mãe e, num anseio natural, deseja conhecer a feição, os olhos de quem a gerou e acolheu. Num esforço supremo, abre seus olhinhos e, nessa terna iniciação, o primeiro olhar acontece, o vislumbre da centelha, o arrebatamento diante do amor mais genuíno, além do tempo, que jamais será esquecido.

A mãe vivencia e reconhece o divino nos olhinhos de seu bebê e, silenciosamente, diz a ele que está aqui, existe nesta dimensão, ainda pequenino e frágil, onde é guardado com todo o carinho e amor.

Para o bebê, sentir-se no olhar da mãe principia uma jornada de consciência ancorada no aqui e agora, guiada pela presença da divindade que é. Durante seu crescimento, a cada nova revelação de si — seu corpo, seus movimentos, suas habilidades — a cena inicial irá se repetir e a criança irá buscar na mãe a confirmação de que seu eu divino está presente, enquanto aprende e evolui nesta vida incipiente.

Como é importante propiciar o brincar, a descoberta, confiar nessa guiança divina. E, se porventura, pelas circunstâncias, a criança se desorientar, ali estará a sua mãe, plena em amor compassivo, a permitir que o silêncio criador realinhe seu bebê em seu caminho.

Nasce, assim, a autoestima e a auto-orientação na criança, pelo reconhecimento de sua divindade e magnificência originais, algo inestimável à sua existência nesta dimensão, nesta vida.

No universo materno, o observar desperto traz a sensibilidade, a inocência e a compaixão da sua criança interior. A numinosidade nos olhinhos de seu bebê é o reluzir desse seu tesouro mais precioso e íntimo, que a mantém viva, sempre em evolução.

Ao perceber as sutilezas e evanescências de seu próprio corpo, sozinha, no silêncio, a mãe eleva seu coração ao amor e discernimento, libertando sua criança divina interior das amarras do medo e da baixa autoestima. E a cada aprendizado de seu bebê, sua criança celebra e ri com alegria e graça, em cumplicidade e parceria. Esse é o segredo da longevidade que a mãe guarda e leva para suas experiências pessoais e relacionamentos, em sua própria jornada de vida individual.

Maristela Rohenkohl

Janeiro, 2020.

Imagem: Mutual Admiration, by Anna Rose Bain

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