Talvez a idade tenha relação com o que vou escrever, e sendo assim, acompanhando essa nova perspectiva, há pouco tempo percebi um deslocamento em meu olhar. Comecei a sentir um contentamento sempre que me voltava para trás. Normalmente acontecia em momentos difíceis, desses quando a gente não sabe muito bem como sair ou ficar. Então, certa vez, enquanto escovava os dentes ou algo assim, ergui o olhar diante do espelho e me surpreendi — havia contentamento lá.

Antes, olhar para trás era me deixar envolver por aquela atmosfera meio sombria que se esgueirava pelas esquinas, com heranças e crenças ainda pendentes, presas umas as outras, numa corrente que a gente disfarça enquanto arrasta por aí. Mas, então, veio o acolhimento, e cada elo é o que é e é eu. Na verdade, tudo é eu. E ao me contemplar, tudo se transmuta — eis aí a minha história.

E o giro dessa espiral também se fez na meditação, onde o processo volteia no entrelaçamento do me acolher e me entregar, amor e fé abraçados nesse coração-criança que assiste o brincar do movimento em si mesmo até o horizonte de mim, onde o vôo despretensioso e livre se insinua — no presente.

No viver, o momento é outro e o mesmo, e eventualmente me descobri contemplando meu passado, minha história, minha caminhada, e daí acendeu em mim o tal contentamento. Minhas heranças, meus hábitos e crenças, tudo que poderia prender, sufocar agora bem ali, nas evoluções de uma dança — minha dança. E a confiança e a esperança que andavam quietinhas se aqueceram, e assim o presente se fez — volto o olhar ao passado, e confio, simplesmente confio no futuro.

Percebo que libertar-me de minhas heranças é vê-las e amá-las em sua plenitude. Elas são minha memória e minha singularidade. Abstraí-las ou transcendê-las parece agora ser uma ilusão, como também ilusória seria a projeção ou comparação com o futuro. Não evoluo rumo ao futuro, mas no sem fim do presente. E a esperança vive no presente, nesse palco onde a criação da minha memória bailarina acontece — surpreendentemente, só para me contentar.

Maristela Rohenkohl

Maio, 2018.


Toda verdadeira criação traz luz e tem um valor intrínseco em si mesma. Se você estiver sentindo isso em seu coração ao ler meu texto e quiser me apoiar, por favor, clique na árvore ao lado.

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