Aguardava, observando os rostos das pessoas na fila, que aguardavam o embarque, o motor do ônibus ligado, aguardando o motorista, que aguardava, enfim… partir. E nesse momento meio em suspensão, ouvi uma voz gentil, mas um pouco cansada: “Licença…” Voltei-me e um senhor, um tanto curvado, talvez pela vida, mas também para se acomodar ao meu lado, aproximou-se de mim. Trocamos um leve sorriso e ali permanecemos, neste suspense, e seus cabelos brancos me envolvendo numa névoa suave, evanescente…

Todos a bordo partimos, e os solavancos me parecendo ondas do mar — talvez até já sentisse o aroma da maresia… Então, um breve incidente lá fora, seu comentário sobre o mundo e foi como se um risco de Sol trespassasse a névoa branca e tocasse seu rosto, reamanhecendo o dia. Ele puxou o fio do tempo, que ainda pairava por ali suspenso, desenrolando-o em palavras que tingiam o espírito com as cores de sua história. Nossa viagem estava começando agora.

Com fala mansa, contou-me que era marceneiro, aprendera o ofício com um antigo mestre em sua pequena, mas próspera fábrica de móveis. E como fora um bom aprendiz, no ofício e na determinação, despediu-se do mestre, dos companheiros, da oficina e com orgulho e vontade deu asas à coragem e partiu.

Iniciou seu próprio negócio, junto com um sócio, que não foi tão sócio assim e o que prometia ser um grande futuro não demorou teve seu fim. Amizade desfeita, dívidas pagas, novamente o coração ansiou, abriu as asinhas e o senhor, jovem na época, estreitou o olhar na direção do horizonte, além da cidade. Como já tinha provado da liberdade, a coragem se fez homem, espichou o caminho, do jeito que fosse, e a jornada começou. Habilidade nas mãos, humildade no peito e com o que aprendera em casa, foi seguindo a vida pelo país.

Por indicação, tomou rumo norte e na carpintaria em obra, construiu a grande cidade, onde até hoje mora a gente daquele lugar.  Madrugadas passaram, suor escorrendo os dias, trabalho árduo, serviço feito, e já com espírito aprumado, sentiu de buscar novos ares, mais puros e limpos. Cruzou serras e pinheirais — dos que ainda restavam — até dar nos campos de alargar a vista, onde resolveu se assentar. E a terra era muita, com muita cerca para erguer, riscando o verde todo, que até hoje se vê lá de cima, lá do céu. Aí, não tardou e o tempo cansou do silêncio e da vida mansa do gado e a ânsia voltou numa bela manhã. Saiu pela estrada, seguindo o Sol nascente e só parou ao sentir os pés se refrescarem no belo mar tropical. E como não nasceu para navegar, mas com mãos para construir, e a vida exigia refinamento, aportou num estaleiro de iates de luxo. Desafios renovam o homem e pouco a pouco foi criando o interior dele e do barco, com beleza e conforto, para acolher as pessoas com seu amor. E o coração satisfeito viu o barco partir, deslizando suave em ondas calmas, que estão na sua memória num quadro bonito que mostra para as pessoas com orgulho e prazer. Respirou fundo o frescor da maresia, contemplou mais uma vez o mar e seguiu pela estrada, ouvindo o adeus dos coqueirais. Com beleza na alma, seu coração voltou-se para o sul e na metrópole, a maior de todas, serviu as pessoas, construindo seus lares, delineando os prédios por dentro, reacendendo os cinzas com o calor de suas mãos, suas esquadrias e sua arte.

Nesse instante o senhor interrompeu a história e com certo ar solene, satisfação e ternura aprofundou o olhar nos meus olhos atentos, ergueu o dedo indicador, só para indicar mesmo que era importante, e me disse: “A gente tem que estar sempre aberto para aprender. A gente tem sempre algo para aprender.”

Agora que a vida vai longa, as aventuras vêm da memória, mas sua arte — seu ofício — permanece viva, na pequena marcenaria em casa, na garagem transformada junto às árvores do seu quintal. E assim segue criando seus móveis ali no seu lugar, um de cada vez, por puro prazer e, porque a beleza encanta, sempre há alguém a pedir.

Um breve silêncio se fez e ele baixou o olhar onde estavam suas mãos, agora estendidas cansadas sob o seu colo. A voz num tom mais grave de um recolhido lamento lá no fundo me tocou: “Mas a madeira, a madeira não é a mesma, não é como antigamente. Agora colocam veneno, ela vem envenenada e trabalhar nela tira a saúde da gente. Naquele tempo não era assim…” E me confessou com certa tristeza que suas mãos andavam dormentes e já sem muita esperança, sabendo as respostas, viajava outra vez para consultar alguém — o especialista.

Percebemos então que havíamos chegado ao destino. Desembarcamos em silêncio, caminhamos alguns passos e ele se voltou. E naquele instante, no meu olhar, sei que viu desenhada a paisagem encantada da minha admiração. Sorrimos e nos apertamos as mãos, demorando uns segundos. Esse foi nosso breve adeus, o adeus a um homem que ainda segue comigo. Esse senhor que me presenteou sua história, me apresentou à vida e, viajante aprendiz, se esculpiu mestre do meu coração.

Maristela Rohenkohl

Maio, 2017.

Imagem: Bus Stop, public domain image.

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