Uma alma estradeira pode acabar levando a gente por caminhos inesperados.

Tudo começou quando decidi explorar aquelas trilhas instigantes — uma história um tanto cabeça, diga-se de passagem — da Física Unificada. Pois não demorou e os contornos masculinos dessas trilhas foram delineando uma aproximação, um aperto de mãos subitamente radiante dos pais em mim. Estética e intuição, matéria e razão ali, em fórmulas e teorias elegantes. Pois descobri que os físicos gostam de elegância, da beleza das equações que dizem vibrar ressonantes com a verdade. — É, as equações dançam! — Agora, adentrar o mundo denso da ciência e do pragmatismo tornou-se algo bonito e possível para mim.

Entusiasmada e curiosa, persisti nessa jornada e mansamente os padrões foram surgindo, desenhando a paisagem, mapeando, geometrizando o caminho. Essa geometria que desabrocha em complexidades e proporções, gerando infinitas partículas e universos inseparáveis na memória que — imagine só — é holográfica! Uma eterna criação sem acasos ou tropeços, mas com consciência, a consciência que está no vazio, em mim, em cada próton e em cada ser, seja de que reino for, seja de que universo for. E essa onisciência esvaneceu as brumas quando voltei o olhar para minhas heranças e, subjacente ao sofrimento, vi beleza, aquela elegância do padrão da vida estava ali também. E é assim, sempre haverá um padrão, uma consciência, e essa certeza chamou minha fé andarilha e a confiança voltou para casa. Sem mais falar em coragem ou desafios, minhas mãos descansaram no meu peito, porque minhas heranças agora velavam tesouros inestimáveis.

Amanheceu e acordei com a lembrança das imagens das Madonas de Rafael, e sem saber o porquê, veio o encantamento. E ali estava eu diante delas, olhares ternos, beleza e luminosidade. A criança que me acompanhava desde minha infância, agora nos braços da mãe, aqueles braços abertos que acolhem e oferecem o mundo a um só tempo. Mãe que gesta, protege, nutre — e olha. Mãe da criança, mãe natureza, mãe dos universos, mãe em mim — mãe que contempla.

Raios de Sol perpassando as nuvens, e despertei mãe no raiar de uma fresca paisagem e visualizei crianças nas pessoas, na natureza, em minhas heranças, nos meus pensamentos e sensações durante a meditação. Despertei criança, porque essa criança é a mãe da mulher. E a vida, um jardim repleto de crianças brincando de roda, evoluindo, renascidas sem parar. Nem mais terapeuta nem mais educadora, apenas mãe. Senti a cada respiração, esse calor, esse olhar. Senti a cada respiração, essa dança, essa presença. Senti a cada respiração, a consciência.

Trilhas desconhecidas e radicais podem conduzir a jornadas inestimáveis. Integrações familiares, revelações íntimas e subitamente me apercebi em um lar. Um lar em mim, mulher. Um lar em nós. Um lar na criatividade, na poesia dessa única e misteriosa Consciência.

(E assim a criança que escreve a memória vislumbra um novo tempo, o tempo do sentir os pés no chão e seguir caminhando em uma poesia nascente e tangível do simples viver.)

Maristela Rohenkohl

Julho, 2018.

Imagem: Cosmos and Madonna Alba, by Rafael Sanzio, public domain images (photographic montage by the author).png

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